Terça-feira, 18 de Junho de 2013

A síndrome da balança

A minha relação com a comida sempre foi uma relação de amor-ódio: amor pela comida, ódio pela balança. De qualquer maneira, o amor sempre falou mais forte e fui ignorando a balança. Dizem-me sempre "não estás gorda, estás... beeem"* ou "tens curvas, mas estás... beeem"*. Nunca "que corpão! como consegues?", portanto. Fui aguentando o "...beeem"*, mas alterei alguns hábitos depois de conhecer a Dra. Mariana Abecasis, o ano passado, e tenho feito mais desporto. Segundo a balança, aumentei a massa magra, diminuí a massa gorda, o que já não é mau. O difícil é realmente (sempre foi) aliar tudo isto à eliminação total dos doces. Os doces têm sido o meu eterno pecado.

No entanto, ao olhar para o calendário, verifiquei hoje que faltam três semanas para ter novamente consulta com a nutricionista do ginásio. Consequência? Vi-me subitamente sem fome. Já me aconteceu o mesmo quando andava a ter consultas com a Dra. Mariana - em dia de consulta, não tinha fome e até era capaz de andar quilómetros a pé. Baptizei estes sintomas de "síndrome da balança", porque acontece-me sempre que sei que vou ser "oficialmente" pesada. Fico sem fome, com vontade de fazer o dobro do exercício e de beber águas e tisanas, como mandam as regras. Por isso, a minha conclusão é que devia passar a marcar consultas todas as semanas!

Alguém pode enriquecer muito comigo, é o que tenho a dizer.


*Ler com uma pausa demasiado grande, como quem hesita antes de concluir o raciocínio.

Lost in translation - já gastaste o teu Latim hoje?

A história dos exames nacionais de ontem fez-me recuar uns bons anos no tempo, mais precisamente para a altura em que eu era uma feliz e descontraída aluna do secundário. Como escolhi o agrupamento de Humanidades (julgo que agora já não se chamará assim, certo?), podia escolher algumas disciplinas dentro da oferta da escola e dentro daquilo que considerava mais fascinante e/ou adequado ao meu futuro profissional. Assim, quando dei por ela, estava a ter Português A, Inglês, Alemão e Latim tudo ao mesmo tempo e contente da vida, porque ia poder finalmente perceber aqueles dizeres estranhos que encontrava em monumentos históricos e ainda as citações que lia em textos mais formais. Por outro lado, ia poder finalmente trocar umas impressões com o meu avô, que tinha andado no seminário, e apregoava a sete ventos que só se conhecia verdadeiramente a nossa Língua se estudássemos primeiro a sua origem - o Latim - e os autores clássicos.

Parte disto verificou-se: ganhei um maior gosto pela nossa Língua e consegui ler parte dos tais autores clássicos em Latim. Quanto à troca de impressões com o meu avô, este dava-me sempre 10 a 0, por isso, era mais um adquirir de conhecimentos que propriamente uma "troca" - eu não tinha nada para lhe dar de volta, com os meus parcos conhecimentos. No entanto, aquilo que me recordo com mais carinho das aulas de Latim, para além dos óptimos professores, apaixonados pela disciplina, e apaixonantes, é dos meus colegas de turma e dos textos hilariantes que resultavam das nossas tentativas de tradução do Latim.

A minha querida amiga e colega de carteira, a A., era das mais esforçadas da turma, mas o seu esforço colidia com o ódio que dizia sentir pelo Latim. "Odeio isto", dizia-me ela, aula sim, aula sim. "Já ninguém fala em Latim, o que me interessa o Cícero ou estas histórias?". No entanto, não desistia, até porque íamos ter exame nacional à disciplina e convinha estarmos preparadas. Um dia, depois de termos feito teste, o professor estava a entregar o respectivo teste corrigido a cada aluno e parou a meio.
- Bem, a entrega do próximo teste exige alguma solenidade. É o teste de uma aluna que, das duas, uma: ou entendeu todo o teor do texto em Latim e decidiu enveredar por uma tradução livre e magoada, tomando o partido da família real o assassinato da aldeia; ou simplesmente não entendeu de todo o texto, mas teve sorte porque eu achei a tradução bastante original e empolgada. A., com que ideia ficou do texto que leu?
- Bem, Professor, eu entendi que havia uma aldeia em que um porco fugiu e que, por isso, a população tentou apanhá-lo e acabou por matá-lo. No fim, comeram-no numa grande festa.
- Pois. De qualquer das formas dei-lhe positiva pelo esforço.
- Professor, se me permite a pergunta... Então a história não era essa?
- Não, A. Não sei onde foi buscar o porco. O texto era sobre um rei tirano que tentou conquistar uma população e que foi assassinado. No final, fez-se uma festa para comemorar. Foi apenas isso. Mas dei-lhe um valor extra pela indignação que sentiu e por ter chegado a insultar o rei.
Riso geral.

No fim, lá vimos juntas o texto original. Terá sido um "sui" qualquer que foi traduzido por ela para "suinus"(?)/ porco, já não estou certa. De qualquer das formas, sempre que se fala em reis ou reis tiranos ainda hoje, lembro-me da revoltada "matança do porco" que a minha amiga descreveu, partindo duma palavra mal traduzida, mas que tanta piada teve. E lembro-me da cara natural com que no fim do exame me disse "qual era o problema em matá-lo? Não vi mal nenhum nisso". Afinal era do porco que se tratava! Uff... A minha amiga continuava a ser um coração de ouro, não tinha desenvolvido subitamente um espírito homicida. Tinha-se apenas perdido algures na tradução.

Segunda-feira, 17 de Junho de 2013

A greve e o exame

Hoje de manhã, acordei a pensar nos alunos do secundário e falava aqui do caso do dia - a greve dos professores e os exames nacionais. Afinal, as últimas estatísticas oficiais, apresentadas pelo Secretário do Estado do Ensino Básico e Secundário, indicam que 76% dos alunos conseguiu fazer o exame nacional hoje. Pena não terem sido todos, situação que só se verificou em Latim. Dizia uma aluna entrevistada pela SIC "senti-me injusta". A parte boa é que tem mais alguns dias para estudar português (e a palavra "injustiçada", por exemplo - terão sido os nervos da câmara?).

Quanto à possibilidade de se restringir o direito à greve com base no interesse público ou no direito dos alunos a fazerem os exames, tendo a tomar o partido dos alunos, talvez por ter sido apenas aluna e sentir esse universo mais próximo de mim. Compreendo que seja uma profissão a sentir-se "injustiçada", tal como se sentem os funcionários públicos, os farmacêuticos, os notários, os dentistas, os advogados, os engenheiros civis, os arquitectos, os médicos, entre tantos outros. Todos eles foram afectados pelo número excessivo de profissionais, por opções legislativas, pela crise que o país atravessa, pelo aumento nos impostos ou pelos cortes nos privilégios anteriormente atribuídos. A verdade é que há cada vez menos profissões "sagradas" ou ditas intocáveis. O que era uma profissão de sonho no tempo dos nossos pais - "filho, devias ser médico ou advogado!" - hoje já não garante estabilidade financeira, rápida progressão ou estatuto social.

Ser professor era, há uns anos, o acto de dar aulas, inspirar alunos, servir de exemplo. Hoje, de acordo com os relatos que me chegam, é isso tudo, mas é também preencher Relatórios sobre tudo e sobre nada, dar apoio educativo a alunos se há horas em que não estão atribuídas aulas para dar, é preencher mais Relatórios e mais Relatórios. E agora ainda falam em mobilidade especial para docentes, aumento do horário de trabalho. Percebo a insatisfação. Mas a verdade é que qualquer dia me parecia certo para a greve à excepção dos dias dos exames nacionais. Então o que é feito do inspirar alunos, do incentivá-los a estudar e a serem os melhores, a entrar na faculdade com óptimas notas, o que é feito do servir de exemplo aos adultos de amanhã...? Infelizmente, um dos efeitos laterais do dia de hoje foi ter-se feito greve também a isto.

O casamento e o papel

Há dias, perguntava aqui, o que mudava, afinal com o papel. E por "papel", entenda-se o casamento. Facto é que muitos de referem ao casamento como o "papel", utilizando frases como "gostamos um do outro e vivemos juntos, um papel não iria mudar nada". No entanto, se fosse tão redutor assim, porque é que assistimos, muito recentemente, à luta (que chegou ao Tribunal Constitucional), pelo direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo? Se fosse só um papel, poderíamos tão simplesmente responder aos casais interessados "vá, desistam dessa luta inglória... É um papel!". Se fosse só um papel, poderíamos passar pelas igrejas e informar os padres da sua função irrelevante. Poderíamos passar pelas Conservatórias e actualizar também os Conservadores do seu papel irrisório. Poderíamos aproveitar e telefonar a algumas quintas onde se realizam casamentos a avisar que era melhor dedicarem-se a aniversários. Deveríamos também escrever alguns emails a lojas de vestidos de noiva e aconselhá-las a especializarem-se em vestidos de noite. Por fim, teríamos a obrigação de contactar os escritores de contos infantis para esquecerem de vez o célebre "casaram e viveram felizes para sempre" e alterarem este final para "foram viver juntos e viveram felizes para sempre".

Para mim, no entanto, mais que um simples "papel", o casamento sempre foi uma certeza: sabia que, um dia, encontrando a pessoa certa, queria casar-me. Não pelos meus pais ou família conservadora (porque nem são), mas por mim. Porque, para mim, o casamento sempre foi visto como um compromisso solene, um ritual em que duas pessoas olham uma para a outra e prometem, perante o Padre, a família e Deus, amar-se e respeitar-se para sempre. "Ah, mas existe divórcio". "Ah, mas há relações sem casamento que funcionam na mesma ou até melhor". É verdade. No entanto, mesmo com o conhecimento desses exemplos, sempre vi o casamento como o natural culminar de uma verdadeira história de amor. Mais que isso: sempre vi o casamento como o início dum belo conto ao estilo do "era uma vez", em que duas pessoas se amam, desejam viver juntas, ter filhos, construir um projecto e envelhecer juntos.

Por isso, apesar dos custos associados a uma cerimónia destas (sim, os casamentos tradicionais são caríssimos!), e apesar de saber que o casamento não significa, por isso só, um acréscimo automático do amor entre o casal, para mim sempre foi - repito - uma certeza. Sempre me quis casar se encontrasse a pessoa certa. E ainda bem que o fiz, o ano passado. Foi o melhor dia da minha vida. E passei a sentir-me mais completa. Porquê? Afinal não é só uma aliança? Afinal não. Algo mudou. O quê? Não sei bem explicar. Mas tornei-me outra pessoa desde esse dia. E, sinceramente, acho que essa pessoa é uma pessoa mais tranquila e feliz. E é uma pessoa que acredita genuinamente que pode ter o seu "felizes para sempre".

Domingo, 16 de Junho de 2013

O peixe-caracol, o bacalhau e o que fica ali no meio

A notícia que está a ser divulgada hoje sobre o alegado bacalhau com natas congelado vendido numa grande superfície, e que veio a revelar, afinal, tratar-se de peixe caracol, deixou-me novamente apreensiva. Depois da história das fezes, depois da carne de cavalo, depois das vacas loucas, e da gripe das aves, estamos a caminhar para onde? Ao mesmo tempo que estas histórias vêm sendo divulgadas, noto, em simultâneo, ironicamente, um maior interesse pela agricultura, pelos alimentos ditos saudáveis, por uma dieta mais equilibrada, uma maior divulgação da prática do desporto e uma maior preocupação com o corpo. Tudo junto, estaremos a caminhar para onde? Teremos que abandonar definitivamente os alimentos congelados, e voltar aos alimentos frescos? Teremos que evitar o produtos químicos e confiar apenas nos alimentos biológicos? Teremos que nos virar para os legumes e fruta vendida na esquina pela D. Maria, em que confiamos? Não sei. Mas a verdade é que cada vez mais desconfio deste tipo de produtos congelados ou refeições pré-preparadas, vendidas em larga escala.

Sábado, 15 de Junho de 2013

Virei organizadora de viagens

Estou muito orgulhosa de mim. Ontem, depois de ter chegado à triste conclusão que há demasiado tempo que não organizávamos nada giro a dois, armei-me de armas e bagagens (ou seja, liguei o computador) e procurei sítios engraçados para passar o fim-de-semana. Confesso que sou uma eterna insatisfeita e canso-me rapidamente de programas iguais, tenho que estar sempre a fazer actividades e a conhecer sítios novos. Herdei isso do meu pai, sem sombra de dúvidas. Então lá descobri uma casa de turismo rural bem engraçada com todos os ingredientes: preço convidativo, piscina exterior enorme, piscina interior, banho turco, ginásio, court de ténis, longos jardins, biblioteca e aceitavam cães... Marquei logo. Fui a correr dizer-lhe, qual criança com um brinquedo novo. Lá viemos. E está-se tão bem! Atendimento cinco estrelas e até direito a jantar na varanda à luz das velas tivemos, sob um céu estrelado. (Soa muito piroso, não soa?)

Portanto, não é para me gabar (mas já estando a fazê-lo...), mas acho que passei com distinção a tarefa de organizadora de viagens. E já deu para desenferrujar do ténis, que não jogava há uns meses. Bom fim-de-semana solarengo!!

Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

O que muda com o papel?

A pergunta foi feita por muitos. E vai sendo repetidamente feita outra vez. O que muda, afinal? Quero saber as vossas opiniões.

Quinta-feira, 13 de Junho de 2013

(eu é que) Fiz cinquenta anos.

Como fui partilhando na página do Facebook (faltam 6 para os 1000 likes, sabiam? está quase), ontem foi dia de festa. Não Santo António, como poderão à partida imaginar, mas festa dupla: festa de cinquenta anos e aniversário de casamento de um familiar muito querido meu. E como se decidiu festejar? Com festa de arromba, tal e qual casamento. A festa era no masculino, mas foram permitidas algumas intrusas. Eu fiz-me de convidada e fui uma delas. E descobri, ao conversar com malta jovem, que estou totalmente ultrapassada. Fui. Acabei. Ora então:
i) A minha afilhada (ainda há pouco uma bebé) tornou-se subitamente uma mulher e está muito mais in que eu, com óculos da moda, unhas com gelinho, anéis cheios de estilo e até às californianas já aderiu. Está linda, e adorei vê-la com o namorado.
ii) Os putos de 10 anos já conhecem os hits todos, sabem as coreografias de todas as músicas, trabalham com aparelhagens complicadíssimas, dominam os sites e programas todos para Djs.
iii) Uma amiga da minha afilhada perguntou incrédula se eu era mesmo prima directa ou se não era antes tia. "Mas que idade é que ela tem?" ouvia-a sussurrar à minha afilhada. Não é bom sinal. Tia??
iv) Perguntaram-me várias vezes quando é que pensava ter bebés. "É a melhor coisa da vida! Ainda não pensas nisso? Está na hora!". Que é como quem diz "vai já fazer o amor, esquece esta festa, que os teus óvulos já estão num tic-tac permanente a caminhar para a extinção". Mas apesar de "ser hora", pelos vistos, eu estava com fome, por isso fui mas é jantar.
v) Todos os miúdos tinham iPhone, iPad e outros gadgets como gente grande.

E tinha muito mais para contar, mas hoje fico por aqui, porque parece que estou atrasada. Pelos vistos"está na hora" desde ontem às 8h da noite. ;)
Aproveite o feriado, quem tiver. Bom trabalho/estudo/o-que-quiserem-fazer para os restantes.
O aniversariante era outro, mas quem se sentiu com 50 anos fui eu.
"Olá, madrinha, tenho menos 14 anos que tu, mas dou-te 10 a 0 em moda e estilo. Terei saído a quem??"
O Dj responsável pela música era desta altura. E não, não padece de nanismo. É mesmo uma criança.
Eu a pensar se me suicidava ou vivia com esta realidade: estou velha. Depois vi que a piscina não era muito funda e optei por viver.

Quarta-feira, 12 de Junho de 2013

Despedidas de solteira

Se há coisa que nunca entendi foi a necessidade de, nalgumas despedidas de solteira, haver uma obsessão com figuras fálicas, objectos sexuais e alusões várias à forca e à morte da pobre noiva. E nunca  percebi, porque:
i) Que eu saiba, despedida de solteira/o significa exactamente isso - o adeus ao estado de solteiro e um olá ao estado de casado, comprometido com outra pessoa.
ii) Sendo que estar solteiro ou sem namorado implica que não se está numa relação certa, estável ou duradoura, certo?
iii) Por outras palavras, estar solteiro significa que a "interacção" (chamemos-lhe assim) com o sexo oposto não se encontra assegurada, correcto?
iv) Por oposição, o estar casado equivale a uma partilha de habitação e relacionamento sexual ("comunhão de cama, mesa e tecto").
v) Assim, analisado de forma crua o casamento, em oposição ao estado de solteiro, a principal diferença é que este comporta, na sua própria definição, uma relação física - quem casa, tem assegurado o carinho e uma relação carnal com o seu companheiro.
vi) O solteiro, por definição também (não estou a falar das uniões de facto, calma), terá, pelo contrário, a indefinição e a incerteza do amor e das vias de facto.
vii) ... Estão ainda a seguir-me?
viii) Assim sendo, as bandoletes com pilinhas, os vibradores de mil e uma cores, as t-shirts com estampados de mulheres a enforcarem-se... deviam ser para as solteiras, não?

Pronto, sei que a exposição foi longa, mas era aqui que queria chegar: mulherio solteiro, guardem os vibradores para  vocês, não os dêem às noivas. Ou então dêem, se já tiverem uma colecção razoável. Mas não se esqueçam que estão a levar areia para o deserto. Ou uma sandes para o restaurante. Ok, já perceberam a ideia. Pode haver sempre lugar para mais areia no deserto. Ou o restaurante não levar a mal. Só que não é "necessário". ;)

Este rapaz é louco

Ele é louco. Não conheço há muito tempo nem convivi o suficiente para tecer um elaborado relatório de considerações sobre ele. Mas partilhámos o carro nalgumas viagens e, ao fim duns escassos momentos, deixou-me a rir às gargalhadas como pouca gente consegue. Porque considero-me amiga duma boa piada, tento levar a vida com humor, mas ataques de riso descontrolado são raros.

Ele tornou-se uma dessas pessoas ao fim de dois minutos. Inédito. Dei por mim a ouvi-lo e achar que estava ao nível dum Ricardo Araújo Pereira ou dum Nuno Markl. Apesar de ter uma profissão muito absorvente e bastante técnica, apesar de ser academicamente brilhante (pelo que me disseram) e um profissional muito dedicado, senti que o mundo dele era, isso sim, a comédia. Comédia inteligente, pelo que me apercebi. Ontem, mais uma vez, tive a prova do sentido de humor invulgar dele.
- Olá. Afinal qual é o teu número de telefone?
- É aquele que te dei no outro dia.
- Mas esse estava desligado.
- Pois, fiquei sem bateria.
- Então o número XXX é de quem?
- Era o meu antigo número de trabalho. Devolvi o telemóvel quando saí de lá.
- Hmm... E mantiveram o número activo?
- Julgo que sim.
- E foi um antigo colega teu que ficou com ele?
- Sim. Acho que sim.
- Um colega sem sentido de humor? Muito mal-disposto?
- Hmmm... Mas como sabes isso?
- É que mandei mensagem a perguntar se dava para marcarmos todos um jantar. Responderam-me "quem és?". Ora, eu pensei que eras tu a gozar comigo. E respondi algo a gozar também. Só que entretanto ligou-me uma voz masculina um pouco zangada. Ainda brinquei, ainda a acreditar que eras tu a gozar comigo, mas depois percebi que não eras mesmo tu.
- Mas disseste algo de mal?
- Define "mal".
- Aii... O que disseste?
- O teu ex colega que tal é? Sisudo?
- Até não... Só que é mais velho e às tantas apanhaste-o a dormir, já, até porque tem filhos pequenos. Mas conta lá.
- Ok. Vou enviar-te a mensagem que enviei em resposta ao "quem és?" e tu vais imaginar a cara do teu colega.

Desligámos. Passado um minuto, recebo a tal mensagem que ele enviou ao tal colega mais velho. "Olá. O meu nome é Y, fiz 35 anos há pouco e passo o meu tempo livre a mandar mensagens assustadoras a senhoras indefesas com números desconhecidos. Tenho uma gabardina de abertura fácil que costumo usar em estacões de metro pouco povoadas a partir de certa hora". É possível não rir ao ler isto? Eu tive que soltar uma gargalhada, só de imaginar a cara do meu colega... Este rapaz é louco.

Terça-feira, 11 de Junho de 2013

É possível descer mais que isto?

Alguém comenta que fulano X trocou uns beijinhos com uma "menina da má vida" e, em uníssono, a resposta de todos é:
- Coitadaaaaa!

E pergunto-vos: é possível descer mais que isto?
...
Temo que não.

A minha vida é perfeita. E a tua?

Já não aguento abrir o Facebook e ver tanta gente a amar-se da forma mais intensa que alguma vez se amou. A viajar para sítios paradisíacos onde o mar e o céu são muito mais azuis e vibrantes que alguma vez os meus olhos viram, e quase me cegam com tanta luz. A comer pratos com comidas lindas, coloridas e espectaculares, daquelas com menos de três calorias e que só as pessoas saudáveis e magras conseguem comer sem sentir fome no fim. Não aguento abrir o Linkedin e ver toda a gente com mil "skills" actualizados todos os dias, sempre descritos em inglês, porque o português é a língua dos pobres e temos que falar e pensar internacional, mesmo que desejemos trabalhar sempre em solo lusitano. Não aguento ver blogs de moda em que só os sapatos custam duas ou três rendas de casa, a carteira custa quatro, os cabelos brilham mais que o sol, as pernas têm sempre metro e meio, pelo menos, e os sorrisos às 8h da manhã são sempre mais rasgados que o meu sorriso às 2h da manhã, depois de dois gin.

É que eu amo uns dias mais, outros menos. Não sou intensa a amar 24h/dia, é cansativo e tenho que comer e dormir. Às vezes não estou para aí virada. Ou não está ele. Às vezes irrito-me e apago-lhe a luz enquanto toma banho. Outras vezes ele diz-me simplesmente "estás sempre perfeita" ou "és a mulher com o sentido de humor mais inteligente que já conheci", e eu fico a nadar em baba e dou-lhe beijos, e beijos e agarro-me a ele qual lapa. É que eu viajo para sítios paradisíacos, mas já entrei em hotéis em que tive nojo dos lençóis e tirámos fotos apenas para dar má classificação no Booking. E no dia seguinte ri-me da história e ficou algo para contar. É que eu como comida espectacular, mas às vezes dá-me a gula às 2h da manhã e como apenas bolachas no sofá, de pijama e cabelo desalinhado, e fico com migalhas no pijama que depois tenho que cuidadosamente deitar para a banca da cozinha. É que eu tirei um curso e trabalho, mas descrevo a minha actividade em português e de forma pouco glamourosa. É que eu visto roupa que às vezes custou meia renda, mas depois tenho vergonha de mim mesma e não digo o preço em voz alta. Fico de castigo auto-imposto, a ir menos vezes a restaurantes, e entro em dieta forçada de compras. Ah e nessa altura não consigo sorrir por pensar na conta bancária.

Tenho uma vida normal, com momentos dignos de filme, com cor, riso, dança, muito amor e amigos. Tenho momentos em que imagino que sou a protagonista duma comédia romântica, tal é a intensidade do momento. E momentos estúpidos, em que sou uma Bridget Jones a comer desalmadamente e cheia de auto-comiseração. Mas sinto-me uma raridade, neste momento. A vida é com certeza perfeita lá fora, tal é a forma como é descrita nas redes sociais. A perfeição só não chegou ainda a minha casa, deve ter-se enganado na morada.

Segunda-feira, 10 de Junho de 2013

Os homens e as máquinas fotográficas - uma relação escaldante*

Todas nós, mulheres, já vivemos isto na pele: temos uma festa especial, vamos ao cabeleireiro passar um par de horas à seca enquanto nos massajam o couro cabeludo, nos penteiam, esticam o cabelo, colocam produto para o brilho, produto para as pontas, produto para a hidratação, produto para mais-não-sei-o-quê, enquanto nos secam o cabelo, pintam as unhas, e arranjam os pés, depois maquilhamo-nos a rigor, pomos uns brincos especiais, uma lingerie mais sexy e provocante, um vestido mais bonito, umas sandálias mais altas, e até as pernas parecem mais morenas e brilhantes, depois de espalhado o pó ou de colocado algum creme. Perdemos horas a arranjar-nos, mas no final sentimo-nos mais bonitas. Sentimo-nos bem! No meu caso, como evito o cabeleireiro como o Diabo evita a cruz, e como odeio pintar as unhas (não me importo que me pintem, atenção - eu não sei é pintar bem a mim mesma), dia de festa pode ter este final feliz, mas é sempre um dia antecedido de horas de aborrecimento total. No exemplo oposto, apraz-me ver que os homens têm um dia normal até à festa, em que só difere a obrigatoriedade do fato, na hora de vestir.

Eis que chega então "a" cerimónia. Se é casamento, baptizado, comunhão ou outra cerimónia na igreja, é ver toda a massa feminina a subir cuidadosamente as escadas, atentando nos degraus em modo equilibrista (graças às sandálias mais altas que o normal), uma massa humana elegante, dócil, com classe, que apenas tenta evitar o vento para não arruinar os seus sedosos e arranjados cabelos. Enquanto isso, a massa humana masculina conversa, ri, troca galhardetes e endireita a gravata, enquanto sobe as escadas em passo ligeiro. Na missa, elas mantêm-se em silêncio, ouvem o padre, emocionam-se com o beijo (se é casamento), observam a beleza do vestido da noiva, mantêm a sua postura dócil e angelical. Eles riem-se quando o noivo se engasga a proferir os votos, comentam as indumentárias mais ousadas, antecipam entre si a distribuição das mesas como se dum jogo de estratégia se tratasse e apenas se calam perante o "shhhiu" delas. O desfile de diferenças entre sexos prossegue.

Chega "a" festa. Os comes e bebes. A parte social. Conversa-se. Ri-se. Comenta-se isto e aquilo. As diferenças atenuam-se. Todos interagem, homens e mulheres. Até que... o momento crucial se aproxima. E nós lhes pedimos, gentilmente e com a nossa voz mais meiga "tiras-me uma fotografia? Disse à minha mãe/ à minha irmã/ à cabeleireira/ à amiga X/ a mim mesma/ _______ [preencher com qualquer motivo válido e inadiável] que lhe mostrava como fiquei, e fazia a reportagem fotográfica." Mas verdade seja dita que o motivo é apresentado, mas a nossa imagem deveria falar por si, qual premissa num silogismo perfeito: arranjámo-nos, quem se arranja quer fotografia, logo, queremos uma fotografia. Há dúvidas? Para eles, sim. Os homens têm uma relação muito estranha com a máquina fotográfica. Podem fotografar qualquer porcaria, que tudo lhes parece muito interessante, mas fotografar a mulher em dia de festa? "Eiii... tem mesmo que ser??!". Pois a resposta está dada nos nossos vestidos novos, sandálias mais altas e cabelo arranjado: tudo grita um "sim" estridente. Tem que ser. Tirem-nos uma fotografia, é pedir muito? Só uma.

Nunca hei-de perceber qual é o problema de nos tirarem uma fotografia e registarem o momento. Sei que há excepções (e fotógrafos profissionais, que não contam), mas pelo que conheço é sempre tããããão difícil e cansativo pôr um homem a tirar-nos uma foto. No meu caso, comprei a máquina fotográfica há uns anos, uma reflex Canon xpto, ele até me deu uma objectiva espectacular a incentivar o "hobby" e.... adivinhem de quem são 99% das fotografias que tenho? Dele. Eu não existo, para a minha máquina. Qual é afinal o problema entre os homens e as máquinas fotográficas? Qual é o problema de nos fotografarem?... Acho que nunca vou perceber.
Os poucos registos da festa. Parecem muitas, mas são duas fotos. Uma desfocada, tirada por ele, dividida em três, para render. E outra tirada por..... mim. Já tinha mostrado no Facebook do blog, mas agora mostro aqui.
*Título muito muito irónico.

Domingo, 9 de Junho de 2013

Fui alvo de uma aposta

... Pela minha própria família. Pelos meus entes mais queridos. E agora estou na dúvida se fico indignada, ou se me limito a sentir-me lisonjeada por se concentrarem em conjecturar planos maquiavélicos contra mim na minha ausência e durante as suas férias.

Pois então estava eu a socializar e a pôr a conversa em dia, ontem, durante o casamento, quando recebo uma MMS da minha querida mãe, esse ser puro e inocente, incapaz da mais pequena maldade. A MMS dizia algo como "o teu pai envolveu-se num desacato. Está a ser levado à esquadra mais próxima para prestar declarações." O tom era sério e sombrio (pelo menos li o texto assim). E a mensagem trazia uma fotografia do meu pai de costas, a caminhar junto a um agente da GNR. Claro que nem duvidei da veracidade da história. Era um assunto sério e a minha mãe não brinca com assuntos sérios. Liguei logo. Insisti. Fiquei preocupada.

Conclusão: a minha mãe atende finalmente o telemóvel a rir "acreditaste? Apostei com a tua irmã vinte euros em como cairias. A tua irmã, pelo contrário, jurava a pés juntos que nunca irias cair numa mentira destas. Está a dever-me vinte euros." Não reconheço a minha própria mãe. Tornou-se um ser maquiavélico e capaz de enganar a própria filha a troco duma aposta. Mas pelo menos já percebi a quem saí com a mania das apostas. É nestas coisas que temos a certeza que não fomos adoptados. ;)

Sábado, 8 de Junho de 2013

Vou ali embonecar-me e já volto

Em época de casamentos de amigos, mesmo que odeie perder tempo em cabeleireiros e manicuras (eu sei que nisso sou um bocado atípica, mas irrita-me essencialmente o tempo de espera, as conversas vazias, a parte de ter alguém a puxar-me o cabelo ou a tentar acertar na temperatura de água com que gosto de lavar a cabeça - é morna, decorem), lá vou eu embonecar-me. Tem que ser e o que tem que ser... Tem que ser!

Se estiver bem-disposta e a sentir-me poderosa no fim pode ser que mostre o cabelo e parte do vestido, ok? ;)

Um bom Sábado para todos!