Todas nós, mulheres, já vivemos isto na pele: temos uma festa especial, vamos ao cabeleireiro passar um par de horas à seca enquanto nos massajam o couro cabeludo, nos penteiam, esticam o cabelo, colocam produto para o brilho, produto para as pontas, produto para a hidratação, produto para mais-não-sei-o-quê, enquanto nos secam o cabelo, pintam as unhas, e arranjam os pés, depois maquilhamo-nos a rigor, pomos uns brincos especiais, uma
lingerie mais sexy e provocante, um vestido mais bonito, umas sandálias mais altas, e até as pernas parecem mais morenas e brilhantes, depois de espalhado o pó ou de colocado algum creme. Perdemos horas a arranjar-nos, mas no final sentimo-nos mais bonitas. Sentimo-nos bem! No meu caso, como evito o cabeleireiro como o Diabo evita a cruz, e como odeio pintar as unhas (não me importo que me pintem, atenção - eu não sei é pintar bem a mim mesma), dia de festa pode ter este final feliz, mas é sempre um dia antecedido de horas de
aborrecimento total. No exemplo oposto, apraz-me ver que os homens têm um dia normal até à festa, em que só difere a obrigatoriedade do fato, na hora de vestir.
Eis que chega então "a" cerimónia. Se é casamento, baptizado, comunhão ou outra cerimónia na igreja, é ver toda a massa feminina a subir cuidadosamente as escadas, atentando nos degraus em modo equilibrista (graças às sandálias mais altas que o normal), uma massa humana elegante, dócil, com classe, que apenas tenta evitar o vento para não arruinar os seus sedosos e arranjados cabelos. Enquanto isso, a massa humana masculina conversa, ri, troca galhardetes e endireita a gravata, enquanto sobe as escadas em passo ligeiro. Na missa, elas mantêm-se em silêncio, ouvem o padre, emocionam-se com o beijo (se é casamento), observam a beleza do vestido da noiva, mantêm a sua postura dócil e angelical. Eles riem-se quando o noivo se engasga a proferir os votos, comentam as indumentárias mais ousadas, antecipam entre si a distribuição das mesas como se dum jogo de estratégia se tratasse e apenas se calam perante o
"shhhiu" delas. O desfile de diferenças entre sexos prossegue.
Chega "a" festa. Os comes e bebes. A parte social. Conversa-se. Ri-se. Comenta-se isto e aquilo. As diferenças atenuam-se. Todos interagem, homens e mulheres. Até que...
o momento crucial se aproxima. E nós lhes pedimos, gentilmente e com a nossa voz mais meiga
"tiras-me uma fotografia? Disse à minha mãe/ à minha irmã/ à cabeleireira/ à amiga X/ a mim mesma/ _______ [preencher com qualquer motivo válido e inadiável]
que lhe mostrava como fiquei, e fazia a reportagem fotográfica." Mas verdade seja dita que o motivo é apresentado, mas a nossa imagem deveria falar por si, qual premissa num silogismo perfeito: arranjámo-nos, quem se arranja quer fotografia, logo, queremos uma fotografia. Há dúvidas? Para eles, sim. Os homens têm uma relação muito estranha com a máquina fotográfica. Podem fotografar qualquer porcaria, que tudo lhes parece muito interessante, mas fotografar a mulher em dia de festa?
"Eiii... tem mesmo que ser??!". Pois a resposta está dada nos nossos vestidos novos, sandálias mais altas e cabelo arranjado: tudo grita um
"sim" estridente. Tem que ser. Tirem-nos uma fotografia, é pedir muito? Só uma.
Nunca hei-de perceber qual é o problema de nos tirarem uma fotografia e registarem o momento. Sei que há excepções (e fotógrafos profissionais, que não contam), mas pelo que conheço é sempre tããããão difícil e cansativo pôr um homem a tirar-nos uma foto. No meu caso, comprei a máquina fotográfica há uns anos, uma reflex Canon xpto, ele até me deu uma objectiva espectacular a incentivar o
"hobby" e.... adivinhem de quem são 99% das fotografias que tenho? Dele. Eu não existo, para a minha máquina. Qual é afinal o problema entre os homens e as máquinas fotográficas? Qual é o problema de nos fotografarem?... Acho que nunca vou perceber.
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| Os poucos registos da festa. Parecem muitas, mas são duas fotos. Uma desfocada, tirada por ele, dividida em três, para render. E outra tirada por..... mim. Já tinha mostrado no Facebook do blog, mas agora mostro aqui. |
*Título muito muito irónico.